Uma semana indo todas as noites para a igreja. Várias oportunidades… essa é minha última chance, a que eu precisava, ou não. Não aguentava mais essa ânsia de gritar, falar toda a verdade, e não me arrepender depois. Cansei de me esconder atrás de um medo, viver me contorcendo em sombras, jogando comigo, indo para qualquer caminho que fosse o contrário do que minha verdadeira vontade insistia em seguir.
“Coragem, coragem, coragem!” – eu não podia desistir, não agora.
Meu maior medo devia ser o de não conseguir fazer ela feliz… talvez eu até conseguisse, mas não ia ser o suficiente. O que eu vou dizer quando ela se calar, esperando ouvir minha voz? Um sonoro e patético “Oi, tudo bem”? Não, não é isso que eu quero. Ela merece mais, muito mais.
Levantamos meio que tediosamente do banco e fomos andando até a saída, praticamente sem se despedir dos amigos que ainda estavam lá. A expressão era de cansaço; o culto tinha sido bom, mas já era tarde. Tentei olhar nos olhos dela, mas o frio começava a tomar conta de mim toda vez que eu tentava. Não dava. Eu não ia conseguir.
Enquanto eu me contorcia em uma batalha quase épica contra meus pensamentos, ela parecia preocupada. Não sei se era pela hora, ou por toda a minha tentativa frustrada de deixá-la feliz. Tudo que eu conseguia ver em seu rosto só me deixava mais angustiado.
Ela riu.
Todas as minhas preocupações, todos os meus medos, todos os meus anseios e até mesmo as minhas dúvidas sumiram no momento em que ela riu. Quase como numa mágica, aquela risada conseguiu entrar em minha alma e dilacerar os medos que ainda insistia em ter. Medo? Eu tinha medo? Não lembro. Seu sorriso era tão hipnotizador que não senti o tempo passar. Finalmente entendi o que significa a eternidade… aqueles 3 segundos foram eternos.
O sorriso acabou. Voltou o rosto preocupado que existia até antes dele. A magia acabou. A eternidade sem medos acabou. A realidade – aah, realidade… – voltou.
A sensação de ver todos os meus medos voltarem de uma só vez não foi boa. Aliás, foi péssima. Pior que antes. A racionalidade não podia voltar tão subitamente assim… um aviso de que tudo iria desmoronar, fazendo as dúvidas voltarem, era uma boa.
Faltava pouco pra chegar na casa dela. Éramos três; eu, ela e meus fantasmas. O frio parecia ficar cada vez pior. Procurei a lua, na esperança de um pouco de conforto, mas até ela havia sumido aquela noite. Tinha que ser só eu e ela. Mais ninguém. Mais nada.
Balbuciei algumas palavras, mas elas fugiam de mim. Eu precisava falar, não podia continuar sem dizer nada. Tentei de novo, mas dessa vez nem a minha boca se abriu. Após muito esforço consegui abrir a boca, e, mesmo assim, só pra mostrar o que eu realmente *não* queria falar.
“Oi, tudo bem?” – falei tão rápido que nem percebi. Me escondi, não era isso que eu queria falar. Podia ter sido algo inteligente, algo esperto, ou qualquer outra coisa, menos isso. Ela forçou um sorriso pelo lado da boca e respondeu meio sem graça: “Tudo”.
Chegamos na entrada do prédio. Ela já estava distante quando eu olhei. Passou na minha frente sem pestanejar, entrou, e disse tchau. Entendi a preocupação. Tudo que pude fazer foi responder o tchau e, com todas as forças que conseguia juntar, sussurrar um “Se cuida…”.
Queria poder falar em voz alta, completar a frase. Virei, olhei todo o caminho que tinha na minha frente, e comecei a me xingar por não ter falado. Eu precisava falar. Eu queria falar. Ah, como eu te amo. Eu te amo, isso não é nada, mas é tudo, mesmo eu nunca tendo dito pra você.
- Semana 11/05 ~ 18/05
Escrito por Nestor